sábado, 1 de agosto de 2009

Hoje finalmente criei coragem e decidi pela máxima de um nada, falar do dia em que o amor acaba.

É, o amor acaba... o coração morre... e sobra apenas um vazio... OCO... Chama Mediastino Médio, sabia?
Antigamente era um lugar. Tal como Nokey Place, um lar. Uma casa com quatro quartos e somente quartos.
Dizem que “quatro quartos” é o que faz um “inteiro”. Então digo de boca cheia: “Era completo”
Havia um grande fluxo de sangue. Sim, muitas pessoas e todas sem rumo. A casa (*que aqui chamo de amor ou coração, se preferir*) simplesmente esqueceu suas funções e em vez de direcionar as pessoas para onde deviam seguir, começou a ficar egoísta e querer manter o sangue preso. Porém as pessoas têm que circular. Um quis seguir seu caminho daqui, outro dali, o coração se sentiu traído e esqueceu de respirar. Num momento de besteira fechou as portas e trancou pra dentro, quem estava dentro e para fora, quem estava fora. As pessoas morrem de tristeza, e o coração... de gangrena.
O mediastino, coitado, ficou lá vazio. Só mais um buraco. Quem passa e olha sente medo, e eu... medo de abandonar a casa que já não existe mais. Eles dizem – “Amo esse lugar, é irado! Mas não consigo dormir aqui, pois me da medo.” – Sei bem qual é esse medo. É o mesmo que a gente tem de dormir sozinho quando é criança.
Uma pessoa chamada “Pedro” (como poderia se chamar “João” ou “Fernando”) me disse – “Você não tem mais coração. Deixou-o pra trás naquela tua “outra vida””. E não é que era verdade?
Quando ele, o coração, trancou as portas e esqueceu de respirar, ficou com a pressão baixa e desmaiou no meio da rua se deixando atropelar. Lá ficou, pois eu não voltei para buscá-lo. Fiquei com medo (e muito!) de vê-lo desfigurado, porque também sou como as outras pessoas e morri de tristeza. Talvez triste e covarde demais para poder encará-lo e me despedir.
Drama queen de marca maior, chorei os 7 oceanos, todos os mares, as bacias, rios, lagos e lagoas e todos os afluentes. Chorei a Terra, pois me perdi no mediastino, sem saber aonde ir. Sozinha, quase autista com a minha dor, corroída pela culpa de não tê-lo resgatado no primeiro momento. Aquela criança que apronta e não sabe como limpar a sua sujeira. Neste tempo todo, enclausurada num mundo paralelo, esquecia de olhar as pessoas perdidas que por ali passavam. Foi quando esse sujeito de nome simples sentou ao meu lado, me resgatando da minha fortaleza mental, mostrando o quanto era pior ficar ali sozinha no frio. Ali chorei a tristeza dele, também e foi tão triste quanto a minha.
Continuo com medo de resgatar esse amor desfigurado. Como poderia, se sempre olhei para ele como o amor mais bonito do mundo? Cheguei a chamá-lo de Enzo, pois o amor mais bonito do mundo merecia o nome mais bonito do mundo. Só que a beleza é tão subjetiva quando quem a vê.
Pensei em convidar o sujeito de nome simples para ir comigo até aquela outra esquina resgatar meu coração. Mas ainda tenho medo de vê-lo. Medo que ele me diga que eu, mais que todas as outras pessoas, o traí e por isso, não me ama mais como antes.
Quando rever o amor, o chamarei de Deus Shiva e as lágrimas de hoje até parece estar mais quentes.
No fim de tudo, talvez o amor não tenha morrido. No dia do atropelamento, veio a súbita era do gelo e ele, lá ficou estagnado. Agora quem sabe, apenas duas andorinhas possam resgatar o verão, e por que não?
Quando desculpei o coração burro e egoísta e resolvi resgatá-lo, dei de cara com a minha culpa e só me resta me desculpar perante ele, re-conhecê-lo como um novo amor, que talvez chame Fênix, amá-lo tanto quanto ele merece (e não é pouco) e ainda digo mais: Aceitá-lo exatamente como ele se apresenta (me amando tanto ou não).
A casa vai ser reconstruída, ali mesmo no Mediastino Médio e espero não esquecer nunca mais da sua função de GUIA, deixando as pessoas entrar e sair conforme se fizer seus destinos.
É engraçado como esse “Pedro” conheceu sem querer, a pior parte de mim (a que faço questão de esconder) e de certa forma tomou conta dela. Espero que um dia possa conhecer a melhor.
Agora penso que o amor não acaba de verdade, apenas se transforma, mais ou menos machucado.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008



Upload feito originalmente por Ra Locatelli
Pai e mãe:
ouro de mina
Coração:
desejo e sina

segunda-feira, 24 de novembro de 2008




MONÔMETRO


Deitado, ouve um barulho quase fúnebre. É o ronco seco da geladeira azul descascada do cômodo ao lado. Ao mesmo tempo, fixa os olhos no teto e vê um feixe de luz laranja acinzentado dos postes da rua entrando pela fresta da cortina bordô rendada, gasta e suja por dedos. Faz anos que espia por ali, como se esperasse uma resposta do tempo. O quarto parece muito com a vizinhança, principalmente com a jovem do 402 – uma senhora de uns 94 anos cuja pele foi esticada por um guindaste até perder toda a elasticidade sobrando somente a felicidade dos acontecimentos. Tenso, o ar parece ter cem quilos. Gosmento, pegajoso, pantanoso, mas corta as narinas deixando tudo mais seco, desértico, parecem mini-flechas afiadas, insuportáveis. Quase dá pra sentir.
Acha que sente, porém não só. Pode jurar que têm pessoas ali. Mas como se não permitiu que entrassem? Sente como se passassem por ele a sussurrar em seus ouvidos os erros de sua vida. Seus fantasmas.
- Erros? Quem dita o que é certo? – Perguntou ela ao professor.
-A ciência – Respondeu o mestre.
Lembra que ficou ali, olhando a cena. E só. Não conseguiu reagir. Porém a vontade de mandar ele a merda foi grande.
– Quanta inutilidade! E o que não se consegue provar? Cadê a ciência quando se precisa dela?
O barulho da geladeira cessa tão logo quanto seu monômetro apita. Está na hora e ele sabe antes de ser avisado.
Uma coisa de casa vez. Sim, era isso mesmo que o aparelho media. “Muito estranho!” Pensou no momento em que descobriu o pequeno artefato. Era uma bússola velha, com aparência de latão enferrujado. O ponteiro nunca apontava ao norte ou a lugar nenhum, muito menos ao que ele mais desejava. Já tinha assistido muitos filmes. Fatídico, ele pensava no que queria e o pequeno aparelho apontava para outro lado. Até achou ser uma brincadeira de mal gosto de algum de seus amigos. Caíra na real, pois nunca tivera amigos. Não era do tipo arrogante, nem gozador, muito menos antipático. Simplesmente era reservado, mas gostava de conversa tanto quanto seu monômetro e ambos pareciam dialogar.
Estavam os dois, indo agora a procura do ocorrido. Como na primeira vez, pega a mochila de lona velha encostada no criado mudo de mogno entalhado, coloca um par de luvas de couro curtido tão surradas quanto um escravo chicoteado no tronco que sangra suas lágrimas de ódio, um lupa estilo Sherlock Holmes, um binóculos maltratado pela guerra, uma lanterna e seu kit primeiros socorros. Sai de seu quarto, pé por pé para não acordar ninguém. A casa está vazia, mas a força do hábito e da obsessão predominam. Lá fora, seu Corvette conversível 57, em um azul marinho tão polido que reflete o brilho da noite ensoladara, o espera sorridente. Dentro dele a vida já não importa mais.
Dirige sem rumo apenas guiado por seu amigo estranho, mas há pressa em suas veias. Com a saliva, engole o coração que pulsa em sua boca. O nervosismo toma conta. Conversa com o espelho retrovisor palavras sem sentido e tão bem entoadas que parecem o mais belo poema de Fernando Pessoa. Saem de sua boca como uma roseira que brota na velocidade de cada palavra, rodeada pela partitura de um instrumental tão profundo... (Se Mozart escutasse com certeza choraria). Pequenas indagações particulares são feitas ali e sorri para o monstro refletido pelo espelho.
Quilômetros submonólogos, o monômetro grita eufórico. Vibra em alternações freneticamente freqüenciais. Apenas uma estrada contornando a encosta da colina. Procura algo sem certeza. Alguém a sua espera, talvez? Que horas são? Porém o tempo já não faz sentido. Indiferentemente, seu abdômen dói.
Ao longo da encosta vê algo semelhante a um cavalo branco subindo a colina. Parecia espectro dentre o verde oliva quase preto predominante na paisagem. O monômetro cessa repentinamente. O ponteiro estático apontando o animal. Vai certeiro como se, por um momento soubesse o que busca.
Pára seu Covertte azul marinho, quase em frente ao quadrúpede que, se não tivesse subido uns metros seria atropelado por sua ansiedade. Buscando respostas, desce do carro em direção ao cavalo e caminha apressado tentando não ser esquecido na relva. O cavalo pára e tal é sua surpresa quando uma voz, tão doce quanto o cheiro das bolachas caseiras confeitadas pela dona da Honey&Honey – sua loja de doces preferida, que talvez nunca mais voltasse a ver – pôde ser ouvida: O senhor está perdido?
O momento é solene. Seu coração bate tão forte e tão desesperadamente que tem a sensação de morte iminente. Treme incessantemente, como se tivesse sendo atacado por um bandido, armado até os dentes.
Um suspiro... E no momento seguinte é tomado por uma paz ao ver o senhor que guia o cavalo estranhamente branco. Sente ser segurado no colo por uma mão tão caridosa e protetora que ali, nenhum perigo pode tocá-lo.
- Boa noite meu senhor, meu nome é Ícaro.
- Ícaro? Das asas derretidas? – Pergunta o velho.
- Exatamente – Responde ele num tom de incerteza e espanto afinal, nunca ninguém tinha manifestado interesse algum pelos restos mortais de seu passado.
- Meu nome é Pegasi. Achei que não vinhas mais – Disse o homem, cujos olhos podiam-se ver mesmo no escuro, pois deles saiam uma espécie de chama azulada. Agora que Ícaro prestara atenção, ficara ainda mais chocado com a situação. Pensou em que diabos de lugar esta merda de aparelho lhe levara? Que tipo de enrascadas lhe traria ainda se continuasse com essa obsessão pelo monômetro? Mas em seu coração, a certeza de continuar a procura era maior.
- O senhor estava a minha espera? Como sabia que eu viria? – Diz Ícaro em tom de espanto.
- Estou lhe chamando há dias e pensei que não fosse mais escutar – Responde Pegasi, revelando sua angústia. – Temos que conversar meu jovem. Sei que buscas respostas. Algumas delas eu posso lhe oferecer, outras, terá que continuar buscando.
A noite os castiga com rajadas incessantes de ventos tão afiados quanto as línguas infelizes das senhoras moradoras de sua rua. Era primavera no momento em que parara o carro, porém o tempo agora é cruelmente gélido, como se quisesse lhe punir por essa estranha idéia de sair em meio a madrugada para procurar sabe-se lá o que, mas fica excitado em poder ter ao menos algumas respostas.
- Claro Sr. Pegasi, onde podemos conversar? – Pergunta Ícaro, relutando com sua postura, mas não conseguindo livrar-se do impulso. Parecia ser puxado por um guindaste com altura de 30 andares. Era onde estava sua cabeça agora. 30 andares acima do chão, fantasiando mil coisas sobre, quais as informações poderiam, este homem lhe revelar.
- Vamos até minha casa. Fica logo ali, poucos metros da descida desta colina. Além disso, Asus está com fome. Ele não gosta de ficar perambulando por aí a noite – Pegasi falava do cavalo e no momento em que Ícaro olha o animal, perde a fala. Era um lindo unicórnio branco, que neste momento abria as asas com toda a força e batia sua pata dianteira direita no chão, como se em protesto. Seus olhos flamejavam iguais aos de Pegasi. Na verdade parecia-lhe o mesmo olho, com a mesma chama, exatamente da mesma cor. Certamente agora lhe surgiram mais e mais perguntas.
Ícaro, por um momento pensou ter enlouquecido. Será que tinha tomado alguma coisa antes de sair de casa? Talvez nem tivesse saído de casa, aquilo lhe parecia muito mais um sonho maluco, daqueles que vinha tendo desde a chegada do monômetro.
Pegasi percebeu o espanto do rapaz, mas não quis tecer comentários, afinal em tempo tudo seria devidamente esclarecido, mas achou pertinente uma conversa para diminuir as tensões.
- Como é viver uma farsa, Ícaro? – Perguntou ele, em tom de indiferença.
- Hum? Como assim viver em uma farsa? Sinceramente não sei do que o senhor está falando – Responde Ícaro, tão espantado com a pergunta, quanto com a situação.
- Como é ter a vida apagada, meu caro, sem ser reconhecido pelas pessoas? – Pegasi falava então do passado de Ícaro e neste momento ele percebe.
- Na verdade, prefiro nem mesmo eu recordar minha vida. Meu pai, todo bondoso fez com que eu caísse neste mundo, que afinal, nem ele sabia da existência. Acho que meus únicos pensamentos memoráveis são sobre o Sol. Talvez haja ainda, uma coisa que nem meu pai saiba. Acho que os restos que sobraram das asas, até certo ponto, se tornaram parte de mim. Muito tempo atrás tentei arrancá-las por completo, em pânico, pois doía muito mais que uma unha encravada – Neste momento, Pegasi olha as costas de Ícaro discretamente e percebe elevações em sua camiseta. – As vezes me pergunto se talvez tivesse ficado no labirinto por mais algumas horas, ou talvez dias, quem sabe as asas não me pertenceriam por completo?
- Pois é meu caro, uma vez escutei de um senhor muito sábio chamado Magno que dizia que a vida tem corações que a própria razão desconhece – Responde Pegasi.
- O que o senhor quer dizer com isso?
- O que eu quero dizer é, há muito mais no coração do que na própria razão e que a vida tem tanto razões, quanto corações.
Agora Ícaro apenas anda, tentando digerir um caroço de manga que talvez nem consiga engolir. Olha para o chão reluzente pelas gotículas de água do orvalho da lua cheia. Consegue ver cada pedra, cada flor ainda dormindo fechada em seu casulo. Sua cabeça dói, talvez até queira um cigarro, mas pensa na felicidade de parar de fumar. Pensa.
Em cima da colina, tem uma sensação de serenidade olhando o campo vasto, escondido pelo mundo. Talvez nunca tivesse prestado atenção como as noites de lua cheia deixavam essa terra deslumbrante. Tão linda quanto uma princesa do século XVIII, com aqueles vestidos armados, cheios de babados, rendas, ouro, prata e pedrarias, dançando em um vasto salão de baile real. Só que ali ela dançava na relva e para Ícaro, ficava ainda mais linda.
- É logo ali – Diz Pegasi. Ícaro não consegue ver nenhum tipo de moradia, por mais simples que seja. “A não ser que ele more em um buraco na terra, pois não é de se esperar mais nada pelo jeito em que as coisas estão”, pensa Ícaro absorto.
- Acho que preciso de um café – comentou Ícaro – não durmo há dias.
- Quando chegarmos a minha casa farei um café pra você, mas se preferir arrumo um lugar pra descansar e conversaremos pela manhã.
Neste momento, Asus avança rapidamente deixando Pegasi para trás e alguns passos adiante, ele entra em um lugar que antes não estava ali. Aliás, só apareceu a partir do momento em que Asus pisou nele. Ícaro teve a sensação de ter visto o animal atravessar uma espécie de cortina invisível, então foi como se ele separasse as duas partes do véu e permitisse que Ícaro a visse enfim. Sua casa.
Ícaro entra no pátio desconfiado. É uma bela casa de campo em formato arredondado, lembrando um chalé. A porta da casa é redonda, mas as janelas lhe parecem normais a não ser pelas cortinas, que lembram muito as da sua própria casa. Pareciam roubadas de lá. A chaminé está soltando uma branda fumaça branco-acinzentada. Logo ao lado direito da casa existe uma pequena estrebaria com formato muito semelhante, porém muito mais confortável que qualquer outra que já vira. Do lado esquerdo, há um pequeno lago e dentro dele Ícaro pode ver uma porção de cogumelos, e jura a si mesmo serem coloridos. Em frente a tudo isso, uma pequena fonte em forma de deusa, mas pela quantidade de luz, não conseguia distinguir ao certo. O pátio é florido e muito bem cuidado. De repente Ícaro sente uma vontade súbita de nunca mais sair dali.
Pegasi vai até a pequena estrebaria, pega um pote com comida e enche lenta e carinhosamente a vasilha de Asus, como se estivesse servindo a si mesmo. Passa a mão de forma doce sobre a cabeça do animal, cochicha algo em suas orelhas e parte para a cabana. A uns três passos da porta se abaixa e colhe umas folhas de capim cidreira do meio das pedras que formam o caminho de entrada. Abre a porta, convidando Ícaro a fazer companhia.
A primeira impressão de Ícaro foi entrar em uma casa muito maior do que poderia se imaginar olhando de fora. Era realmente enorme. O pé direito tinha em média uns 3 metros de altura. Possuía apenas dois quartos, pelo que conseguiam deduzir os olho. Estavam abertos, ambos possuíam camas de casal com o que pareciam ser jogos de cama ornamentados em uma mistura de gótico e romântico-vitoriano, com muitos bibelôs e moveis de antiquário. Uma verdadeira aula de história. Na verdade toda a casa partia desse pressuposto. Pegasi era quase arqueólogo. Havia ainda na casa duas salas distintas, uma cozinha de dar inveja a qualquer dona de casa e o que mais chama atenção de Ícaro é a biblioteca, que lembra muito uma das que mais gostou de freqüentar, Stiftsbibliothek St. Gallen. Faz seu ego invejar cada livro contido ali. Tem as prateleiras em tabaco, do chão ao teto e isto inclui todas as paredes da sala. Uma escada com rolamentos para passar aos mínimos lugares e não deixar nenhuma bula de remédio sem poder ser lida. No meio, poltronas tão confortáveis quanto o colo de sua mãe e descanso de braços que permitiriam horas de leitura ferrada.
Pegasi, passo por passo, se dirige até a cozinha, coberta pelos veios rosados, esbranquiçados e acinzentados do mármore Alpenina polido, pega uma chaleira com formato de galinha de angola, coloca em seu fogão de mesa General Electric, prepara um pequeno bule de porcelana chinesa, branco decorado com flores douradas, com o capim cidreira que colheu há pouco. Espera a ansiosa fervura da água que logo borbulha, esquentando timidamente o ambiente ao seu redor. Derrama a água carinhosamente como se preparasse o mais complicado feitiço. Espera cinco minutos cavados como o punhal que Ícaro sonhara outrora. Convida Ícaro a sentar-se em uma poltrona reclinável, de couro preto siliconado. Serve o chá em xícaras iguais ao bule, sobrepostas em uma bandeja de prata polida, da cor de tudo o que conseguia refletir.
Ícaro sente-se cansado, pega uma xícara, bebe alguns goles do chá adocicado pela natureza. Relaxa. Relembra. Acorda.
- Senhor Pegasi, estive pensando... O que o senhor quis dizer com estar me chamando há dias? Não recebi nenhum telefonema, aviso ou coisa alguma – Diz Ícaro, com a voz tão lenta que consegue sentir cada palavra ao sair de sua boca, atravessando a garganta pela própria conta e risco, como alheias a si mesmo. Neste instante ele se aliena. Percebe que não pensa exatamente no que fala. A vontade de ficar olhando os detalhes daquela casa extraordinária é muito maior que sua curiosidade em como fora parar ali ou como foi realmente chamado. Sente-se seguro, pela primeira vez está em casa. Nada mais importa. Seus olhos têm o peso do mundo, o ar é brando, morno, aconchegante e convidativo. Em segundos adormece.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Pecado - Sin



O pecado talvez seja o mote que intolera virtudes, e não só isso (essa disposição habitual para praticar o bem). Talvez seja o pão que disfarça holocaustos. O chão que cai quando se quer o que já foi - ou que foi do outro, que ainda é. Um movimento sutil e infernal de fumaças alusivas às idéias perdidas, que não se impuseram, que não tiveram chance – que perderam chances de lavar seus motivos e respiram pardas de tão sujas o ranço que se submeteram. Idéias banguelas, que se atrapalham na timidez das cores que as escondem. Falam, e não falam claro. São, mas de tanta relatividade, parecem.
O pecado mata pelos olhos – brandos de maldade. Na ausência e na eficiência da percepção. Na contradição bate-volta entre extremos inversos. Pecar passa pelo tormento, se estabelece em inocências, desfalece – ressurge. Costuram-se bocas e tapam-se ouvidos e entopem-se narizes a fim de permanecer no comodismo agradável. Fechado.
- Por que se chama pecado? Oras, porque Sin.

Por Patrícia Galelli

domingo, 9 de novembro de 2008

That's just the way it is...

Das balas perdidas que, AQUI, caíram.






O CANAL

TOC... O barulho surdo e seco é a única luz no vazio. Acorda como se fosse a primeira vez. O corpo lhe parece maquina desutilizada. Nas artérias não há sangue. Pensa em morrer ali mesmo. Não da pra saber o tamanho do lugar, mas da pra ouvir o coração pulsando oco. Entre os últimos suspiros, ela chama. Grita em seu íntimo e ecoa fundo por um cano em direção ao occipital. Chama por alguém que a salve.
Ao longe ele olha, com a dificuldade de quem passou horas admirando o sol. Pisca duas vezes, esfrega os olhos e ainda assim demora alguns segundos até conseguir se habituar a pouca luminosidade. Na medida em que a visão se torna nativa, Ícaro começa a ver moradias de fungos. Várias colônias deles, transformando-se quase em Mundo no pequeno espaço de um tijolo de pedra úmido. Paredes completamente cheias. De pedras e de fungos. O pouco dos tijolos, o que sobra pra olhar, é de um cinza 80%, cinza chumbo, mais que apenas pedra. Busca no chão suas respostas “Afinal de contas, que lugar é esse?” Teve vontade de voltar, pena não saber de onde veio. Olha o chão novamente. É tudo pedra. Escuta o cair das gotas que escorrem pelas veias dos fungos.
- EI MOÇA, QUE LUGAR É ESSE? – Grita ele, recebendo como resposta uma indiferença banal.
- EI MOÇA! – Se aproxima rapidamente – Moça?
Sente uma estranha respiração ofegante em sua nuca. Não lhe sobram forças para olhar pra trás, muito menos pra continuar caminhando. Apóia-se na parede e cai de joelhos, feito saco de cimento arremessado do alto – Por favor, Deus! Me ajude! – Sussurra.
- Eu vou lhe ajudar, moça! O que foi que... – Neste momento vê o sangue escorrendo de seu peito. Passa o braço por sua cintura e como se quisesse a salvar da dor que o chão lhe causa, a levanta lentamente. Sem mais perguntas, firma-se em seu Eu e com veemência ele diz – Eu vou lhe ajudar!
Dá dois passos e se apóia nas paredes molhadas. A jornada é longa, afinal quanto tempo há para ser salva? Mais dois passos... PLACT! O cheiro pútrido em suas entranhas a corroem como um ácido. Sente vontade de vomitar. O chão pegajoso, os buracos fundos no assoalho e o sangue que corre pelos veios de pedra...
Curiosamente Ícaro observa e vê o liquido chegar a um pequeno canal. Então percebe que está em algum lugar dos esgotos subterrâneos. Alguns metros à frente, nota uma pequena entrada à esquerda. Tenta apressar o passo, mas a moça não ajuda. Ambos respiram ofegantes, porém a pobre parece ter perdido as esperanças. Eles param. Ícaro aproveita para examinar o estado da garota.
Agora que pôde vê-la, percebe como é nova. Deve ter uns 22 anos, no máximo 25. Muito bonita, com cabelos castanho acinzentado, lisos, na altura do quadril. Usa uma franja jogada para o lado. Nos olhos, uma mistura de azul, verde e amarelo que refletem sua alma desesperada. Teve a sensação de já conhecê-la. Mas foi há muito tempo atrás. Dará sua vida por ela, mas não a deixará morrer, pensa.
Tentou pegá-la no colo, mas seu peso é estranhamente desproporcional ao que aparenta. Ícaro costumava levantar muito peso, fazia musculação quase todos os dias. A garota é magra, não deve ter mais do que 52 ou 53 quilos, mas impressionantemente não conseguiu suspendê-la.
Levanta-a novamente do chão, mesmo sabendo o quanto irá doer e num ato desesperado, caminha quase a arrastando através da entrada de esgoto, com esperanças de achar uma saída. Ao dobrar a esquerda surgem três pessoas correndo em sua direção. Uma dama de aproximadamente uns 32 anos, estatura mediana, morena, de cabelos curtos, um senhor de meia idade, grisalho, pouco acima do peso e um jovem garoto, com olhos da mesma cor dos da moça. Ambos com aparência muito familiar, mas em decorrência dos acontecimentos sua mente está turva em demasia.
- Como está Lótus? Levamos horas para achá-la, mas graças a Deus, tinha certeza que você iria conseguir Ícaro. Os outros estavam procurando nos demais lugares deste esgoto, mas acho que não demora para nos encontrarem. O médico já foi avisado, estão todos no aguardo – disse o garoto polvoroso.
Lótus? Pensou ele. Nunca conhecera ninguém com este nome, mas a situação não permitia questionamentos – Está ferida! Não consegue sequer responder e pelo estado, não questionei muito. Acho que temos que tirá-la daqui o mais rápido possível. Não consigo dizer a quantidade de sangue que perdeu, pois quando cheguei, já estava assim. Preciso de ajuda, não consigo levá-la sozinho.
De repente, mais cinco pessoas se juntam a eles – VAMOS LOGO!! Temos que levá-la ao hospital! – Grita um homem alto, de pele morena, como se além de saber onde estavam, sabia que tinham parado discutir o caso. Chegam mais duas garotas e como mágica, um súbito ânimo toma conta de Lótus, que carregada por elas, se levanta e segue pelo canal, sabendo bem aonde ia.
- Vamos Lótus, tudo vai dar certo! Estamos aqui agora – Disse a morena alta, de cabelos crespos.
- Eu não quero morrer... – Sussurra Lótus.
- Você não vai morrer amiga, nós vamos ajudar você. Está todo mundo aqui. Fique calma e continue andando. Só mais alguns passos...
Quando Ícaro viu, penso na beleza da cena. Família e amigos... todos ajudando salvar a bela moça. E a cada segundo chegavam mais e mais sujeitos, os quais ele nunca tinha visto na vida, ou já tivera, mas não conseguia lembrar. Mas começava a se perguntar o que teria haver com aquilo, por que as pessoas sabiam seu nome? E aquele garoto, que parecia ser o irmão de Lótus? Como tinha certeza que seria Ícaro o primeiro a encontrá-la?
Em meio a seus pensamentos ficou, praticamente sozinho... Todas as pessoas seguiam com Lótus. Era estranho, ninguém a carregou no colo, como se fosse essa sua provação, seu mérito para poder viver, como antes pedira... Parecia ser arrastado por ela como um cachorro preso pela guia.
Alguns minutos depois, já estavam no hospital. Nunca vira tanta gente esperando por alguém em cirurgia. Como sabia que estava em cirurgia? Nem ele sabia. Não ouvira falar, mas tinha certeza. Pessoas apareciam e desapareciam em segundos. Alguns trazendo noticias, outros perguntando por elas. Sua visão estava turva. Tudo começou a ficar nublado.
- Ícaro! – Ouviu um grito baixo. Lótus, com certeza. – Ícaro! – Continuava chamando e o de repente um grito surdo – ÍCAROOO!
Acorda assustado... O coração palpitando forte, como se fosse pular de seu peito e explodir. A respiração ofegante como se tivesse corrido a maior maratona de sua vidinha medíocre. O pensamento e a sensação de ter vivido tudo aquilo.
Senta na beirada da cama em meio a seus pensamentos e tenta lembrar tudo aquilo que sonhara, porém as lembranças começam a ficar vagas...
7:24 AM – alertava o relógio. Era hora de procurar o que fazer.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Dureza ser metralhada logo cedo.

Construções, construções...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


E se for pra falar algo de bom

Sempre pensarei em você