Das balas perdidas que, AQUI, caíram.
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O CANAL
TOC... O barulho surdo e seco é a única luz no vazio. Acorda como se fosse a primeira vez. O corpo lhe parece maquina desutilizada. Nas artérias não há sangue. Pensa em morrer ali mesmo. Não da pra saber o tamanho do lugar, mas da pra ouvir o coração pulsando oco. Entre os últimos suspiros, ela chama. Grita em seu íntimo e ecoa fundo por um cano em direção ao occipital. Chama por alguém que a salve.
Ao longe ele olha, com a dificuldade de quem passou horas admirando o sol. Pisca duas vezes, esfrega os olhos e ainda assim demora alguns segundos até conseguir se habituar a pouca luminosidade. Na medida em que a visão se torna nativa, Ícaro começa a ver moradias de fungos. Várias colônias deles, transformando-se quase em Mundo no pequeno espaço de um tijolo de pedra úmido. Paredes completamente cheias. De pedras e de fungos. O pouco dos tijolos, o que sobra pra olhar, é de um cinza 80%, cinza chumbo, mais que apenas pedra. Busca no chão suas respostas “Afinal de contas, que lugar é esse?” Teve vontade de voltar, pena não saber de onde veio. Olha o chão novamente. É tudo pedra. Escuta o cair das gotas que escorrem pelas veias dos fungos.
- EI MOÇA, QUE LUGAR É ESSE? – Grita ele, recebendo como resposta uma indiferença banal.
- EI MOÇA! – Se aproxima rapidamente – Moça?
Sente uma estranha respiração ofegante em sua nuca. Não lhe sobram forças para olhar pra trás, muito menos pra continuar caminhando. Apóia-se na parede e cai de joelhos, feito saco de cimento arremessado do alto – Por favor, Deus! Me ajude! – Sussurra.
- Eu vou lhe ajudar, moça! O que foi que... – Neste momento vê o sangue escorrendo de seu peito. Passa o braço por sua cintura e como se quisesse a salvar da dor que o chão lhe causa, a levanta lentamente. Sem mais perguntas, firma-se em seu Eu e com veemência ele diz – Eu vou lhe ajudar!
Dá dois passos e se apóia nas paredes molhadas. A jornada é longa, afinal quanto tempo há para ser salva? Mais dois passos... PLACT! O cheiro pútrido em suas entranhas a corroem como um ácido. Sente vontade de vomitar. O chão pegajoso, os buracos fundos no assoalho e o sangue que corre pelos veios de pedra...
Curiosamente Ícaro observa e vê o liquido chegar a um pequeno canal. Então percebe que está em algum lugar dos esgotos subterrâneos. Alguns metros à frente, nota uma pequena entrada à esquerda. Tenta apressar o passo, mas a moça não ajuda. Ambos respiram ofegantes, porém a pobre parece ter perdido as esperanças. Eles param. Ícaro aproveita para examinar o estado da garota.
Agora que pôde vê-la, percebe como é nova. Deve ter uns 22 anos, no máximo 25. Muito bonita, com cabelos castanho acinzentado, lisos, na altura do quadril. Usa uma franja jogada para o lado. Nos olhos, uma mistura de azul, verde e amarelo que refletem sua alma desesperada. Teve a sensação de já conhecê-la. Mas foi há muito tempo atrás. Dará sua vida por ela, mas não a deixará morrer, pensa.
Tentou pegá-la no colo, mas seu peso é estranhamente desproporcional ao que aparenta. Ícaro costumava levantar muito peso, fazia musculação quase todos os dias. A garota é magra, não deve ter mais do que 52 ou 53 quilos, mas impressionantemente não conseguiu suspendê-la.
Levanta-a novamente do chão, mesmo sabendo o quanto irá doer e num ato desesperado, caminha quase a arrastando através da entrada de esgoto, com esperanças de achar uma saída. Ao dobrar a esquerda surgem três pessoas correndo em sua direção. Uma dama de aproximadamente uns 32 anos, estatura mediana, morena, de cabelos curtos, um senhor de meia idade, grisalho, pouco acima do peso e um jovem garoto, com olhos da mesma cor dos da moça. Ambos com aparência muito familiar, mas em decorrência dos acontecimentos sua mente está turva em demasia.
- Como está Lótus? Levamos horas para achá-la, mas graças a Deus, tinha certeza que você iria conseguir Ícaro. Os outros estavam procurando nos demais lugares deste esgoto, mas acho que não demora para nos encontrarem. O médico já foi avisado, estão todos no aguardo – disse o garoto polvoroso.
Lótus? Pensou ele. Nunca conhecera ninguém com este nome, mas a situação não permitia questionamentos – Está ferida! Não consegue sequer responder e pelo estado, não questionei muito. Acho que temos que tirá-la daqui o mais rápido possível. Não consigo dizer a quantidade de sangue que perdeu, pois quando cheguei, já estava assim. Preciso de ajuda, não consigo levá-la sozinho.
De repente, mais cinco pessoas se juntam a eles – VAMOS LOGO!! Temos que levá-la ao hospital! – Grita um homem alto, de pele morena, como se além de saber onde estavam, sabia que tinham parado discutir o caso. Chegam mais duas garotas e como mágica, um súbito ânimo toma conta de Lótus, que carregada por elas, se levanta e segue pelo canal, sabendo bem aonde ia.
- Vamos Lótus, tudo vai dar certo! Estamos aqui agora – Disse a morena alta, de cabelos crespos.
- Eu não quero morrer... – Sussurra Lótus.
- Você não vai morrer amiga, nós vamos ajudar você. Está todo mundo aqui. Fique calma e continue andando. Só mais alguns passos...
Quando Ícaro viu, penso na beleza da cena. Família e amigos... todos ajudando salvar a bela moça. E a cada segundo chegavam mais e mais sujeitos, os quais ele nunca tinha visto na vida, ou já tivera, mas não conseguia lembrar. Mas começava a se perguntar o que teria haver com aquilo, por que as pessoas sabiam seu nome? E aquele garoto, que parecia ser o irmão de Lótus? Como tinha certeza que seria Ícaro o primeiro a encontrá-la?
Em meio a seus pensamentos ficou, praticamente sozinho... Todas as pessoas seguiam com Lótus. Era estranho, ninguém a carregou no colo, como se fosse essa sua provação, seu mérito para poder viver, como antes pedira... Parecia ser arrastado por ela como um cachorro preso pela guia.
Alguns minutos depois, já estavam no hospital. Nunca vira tanta gente esperando por alguém em cirurgia. Como sabia que estava em cirurgia? Nem ele sabia. Não ouvira falar, mas tinha certeza. Pessoas apareciam e desapareciam em segundos. Alguns trazendo noticias, outros perguntando por elas. Sua visão estava turva. Tudo começou a ficar nublado.
- Ícaro! – Ouviu um grito baixo. Lótus, com certeza. – Ícaro! – Continuava chamando e o de repente um grito surdo – ÍCAROOO!
Acorda assustado... O coração palpitando forte, como se fosse pular de seu peito e explodir. A respiração ofegante como se tivesse corrido a maior maratona de sua vidinha medíocre. O pensamento e a sensação de ter vivido tudo aquilo.
Senta na beirada da cama em meio a seus pensamentos e tenta lembrar tudo aquilo que sonhara, porém as lembranças começam a ficar vagas...
7:24 AM – alertava o relógio. Era hora de procurar o que fazer.
Ao longe ele olha, com a dificuldade de quem passou horas admirando o sol. Pisca duas vezes, esfrega os olhos e ainda assim demora alguns segundos até conseguir se habituar a pouca luminosidade. Na medida em que a visão se torna nativa, Ícaro começa a ver moradias de fungos. Várias colônias deles, transformando-se quase em Mundo no pequeno espaço de um tijolo de pedra úmido. Paredes completamente cheias. De pedras e de fungos. O pouco dos tijolos, o que sobra pra olhar, é de um cinza 80%, cinza chumbo, mais que apenas pedra. Busca no chão suas respostas “Afinal de contas, que lugar é esse?” Teve vontade de voltar, pena não saber de onde veio. Olha o chão novamente. É tudo pedra. Escuta o cair das gotas que escorrem pelas veias dos fungos.
- EI MOÇA, QUE LUGAR É ESSE? – Grita ele, recebendo como resposta uma indiferença banal.
- EI MOÇA! – Se aproxima rapidamente – Moça?
Sente uma estranha respiração ofegante em sua nuca. Não lhe sobram forças para olhar pra trás, muito menos pra continuar caminhando. Apóia-se na parede e cai de joelhos, feito saco de cimento arremessado do alto – Por favor, Deus! Me ajude! – Sussurra.
- Eu vou lhe ajudar, moça! O que foi que... – Neste momento vê o sangue escorrendo de seu peito. Passa o braço por sua cintura e como se quisesse a salvar da dor que o chão lhe causa, a levanta lentamente. Sem mais perguntas, firma-se em seu Eu e com veemência ele diz – Eu vou lhe ajudar!
Dá dois passos e se apóia nas paredes molhadas. A jornada é longa, afinal quanto tempo há para ser salva? Mais dois passos... PLACT! O cheiro pútrido em suas entranhas a corroem como um ácido. Sente vontade de vomitar. O chão pegajoso, os buracos fundos no assoalho e o sangue que corre pelos veios de pedra...
Curiosamente Ícaro observa e vê o liquido chegar a um pequeno canal. Então percebe que está em algum lugar dos esgotos subterrâneos. Alguns metros à frente, nota uma pequena entrada à esquerda. Tenta apressar o passo, mas a moça não ajuda. Ambos respiram ofegantes, porém a pobre parece ter perdido as esperanças. Eles param. Ícaro aproveita para examinar o estado da garota.
Agora que pôde vê-la, percebe como é nova. Deve ter uns 22 anos, no máximo 25. Muito bonita, com cabelos castanho acinzentado, lisos, na altura do quadril. Usa uma franja jogada para o lado. Nos olhos, uma mistura de azul, verde e amarelo que refletem sua alma desesperada. Teve a sensação de já conhecê-la. Mas foi há muito tempo atrás. Dará sua vida por ela, mas não a deixará morrer, pensa.
Tentou pegá-la no colo, mas seu peso é estranhamente desproporcional ao que aparenta. Ícaro costumava levantar muito peso, fazia musculação quase todos os dias. A garota é magra, não deve ter mais do que 52 ou 53 quilos, mas impressionantemente não conseguiu suspendê-la.
Levanta-a novamente do chão, mesmo sabendo o quanto irá doer e num ato desesperado, caminha quase a arrastando através da entrada de esgoto, com esperanças de achar uma saída. Ao dobrar a esquerda surgem três pessoas correndo em sua direção. Uma dama de aproximadamente uns 32 anos, estatura mediana, morena, de cabelos curtos, um senhor de meia idade, grisalho, pouco acima do peso e um jovem garoto, com olhos da mesma cor dos da moça. Ambos com aparência muito familiar, mas em decorrência dos acontecimentos sua mente está turva em demasia.
- Como está Lótus? Levamos horas para achá-la, mas graças a Deus, tinha certeza que você iria conseguir Ícaro. Os outros estavam procurando nos demais lugares deste esgoto, mas acho que não demora para nos encontrarem. O médico já foi avisado, estão todos no aguardo – disse o garoto polvoroso.
Lótus? Pensou ele. Nunca conhecera ninguém com este nome, mas a situação não permitia questionamentos – Está ferida! Não consegue sequer responder e pelo estado, não questionei muito. Acho que temos que tirá-la daqui o mais rápido possível. Não consigo dizer a quantidade de sangue que perdeu, pois quando cheguei, já estava assim. Preciso de ajuda, não consigo levá-la sozinho.
De repente, mais cinco pessoas se juntam a eles – VAMOS LOGO!! Temos que levá-la ao hospital! – Grita um homem alto, de pele morena, como se além de saber onde estavam, sabia que tinham parado discutir o caso. Chegam mais duas garotas e como mágica, um súbito ânimo toma conta de Lótus, que carregada por elas, se levanta e segue pelo canal, sabendo bem aonde ia.
- Vamos Lótus, tudo vai dar certo! Estamos aqui agora – Disse a morena alta, de cabelos crespos.
- Eu não quero morrer... – Sussurra Lótus.
- Você não vai morrer amiga, nós vamos ajudar você. Está todo mundo aqui. Fique calma e continue andando. Só mais alguns passos...
Quando Ícaro viu, penso na beleza da cena. Família e amigos... todos ajudando salvar a bela moça. E a cada segundo chegavam mais e mais sujeitos, os quais ele nunca tinha visto na vida, ou já tivera, mas não conseguia lembrar. Mas começava a se perguntar o que teria haver com aquilo, por que as pessoas sabiam seu nome? E aquele garoto, que parecia ser o irmão de Lótus? Como tinha certeza que seria Ícaro o primeiro a encontrá-la?
Em meio a seus pensamentos ficou, praticamente sozinho... Todas as pessoas seguiam com Lótus. Era estranho, ninguém a carregou no colo, como se fosse essa sua provação, seu mérito para poder viver, como antes pedira... Parecia ser arrastado por ela como um cachorro preso pela guia.
Alguns minutos depois, já estavam no hospital. Nunca vira tanta gente esperando por alguém em cirurgia. Como sabia que estava em cirurgia? Nem ele sabia. Não ouvira falar, mas tinha certeza. Pessoas apareciam e desapareciam em segundos. Alguns trazendo noticias, outros perguntando por elas. Sua visão estava turva. Tudo começou a ficar nublado.
- Ícaro! – Ouviu um grito baixo. Lótus, com certeza. – Ícaro! – Continuava chamando e o de repente um grito surdo – ÍCAROOO!
Acorda assustado... O coração palpitando forte, como se fosse pular de seu peito e explodir. A respiração ofegante como se tivesse corrido a maior maratona de sua vidinha medíocre. O pensamento e a sensação de ter vivido tudo aquilo.
Senta na beirada da cama em meio a seus pensamentos e tenta lembrar tudo aquilo que sonhara, porém as lembranças começam a ficar vagas...
7:24 AM – alertava o relógio. Era hora de procurar o que fazer.

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